TRIBUTO AO PAYADOR

Um dia surgiu do nada
Como do nada se veio
Sem nunca experimentar freio
Nem focinheira ou buçal
Tinha um dom natural
Trazido na genealogia
Era o dom da poesia
E um dicionário campeiro
Com o timbre de missioneiro
Do payador que nascia

Criado assim no relento
No campo sem aramado
Meio xucro, retovado,
Guapo e de muito respeito
Jeito simples, era o seu jeito
Mas na rima foi letrado
Poeta do verso rimado
Sem canudo de doutor
Foi mestre, foi professor
Na rima, era pós graduado

O legendário Uruguai
É o Rio Grande que te viu nascer
E que te deu de beber
Na inspiração do teu canto
Também acolheu o pranto
Do missioneiro que não chora
Mesmo sabendo que a hora
Não perde por esperar
Mas não há como não chorar
Quando tu te vais embora

Melenas soltas ao vento
Que os anos branqueou de geada
A voz rouca das payadas
Feitas no mais de improviso
Brotando assim sem aviso
Na mente do trovador
Como se o criador
E a própria criatura
Confundisse em uma só figura
Peão, poeta e payador

Tu retratou o Rio Grande
Com versos feito repente
Germinando qual semente
Plantada na terra nova
Fez a rima, deu a prova
“Brigou galo” fez “bochincho”
Ninguém te quebrou o corincho
Fazendo versos campeiro
E teu canto serviu de apero
P’ ra encilhar o “Tobiano Capincho”

Tu és a voz do Rio Grande
Do gaúcho insubmisso
Que sabe honrar compromisso
E sustentar o que fala
Tu és a voz que não cala
Que reclama liberdade
Valentia e humildade
Nunca precisou impor
O teu canto tem valor
Porque retrata a verdade

Tu és o cujo da gema
Cujo dom é o instinto
Já herdou quando ainda pinto
Sem nunca perder o tino
Um sábio sem ter ensino
Um mestre de mil lições
Que foi batendo tições
Reascendeu o brasedo
P’ra ensinar p’ro piazedo
O culto das tradições.

JAYME CAETANO BRAUN
Tuas pajadas são lendas
Que ainda hoje encantam as prendas
E faz arrepiar o gaudério
Os feitos do “tio Lautério”
E a “Venda do Bonifácio”
O negro “tio Anastácio”
Que um dia foi teu amigo
E que hoje está contigo
E no céu fez teu prefácio

Tu és a história viva
Desta pampa legendária
Das reduções centenárias
Misto de santo e guerreiro
De profeta missioneiro
Que revelou as profecias
Em forma de poesias
Contando este chão sagrado
E hoje o Rio Grande enlutado
Por isso te reverencia

Então, quando me dizem
Que o Jayme já morreu
Quero lhes confessar que eu
Não consigo compreender
Como poderia morrer
Alguém que está entre nós
Que ainda ouço a sua voz
Perguntando …e a china?!
E escuto de relancina
Me deixem c’o a china a sós

Mas já que te fostes parceiro
Que vá na frente teus versos
P’ra que o Patrão do Universo
Dê o paraíso à tua alma
P’ra que anjos batam palmas
Ao ouvir tuas pajeadas
Mostra a família sagrada
De que talento te sobra
E aí, reedite tua obra
Que aqui já está consagrada

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